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Enquete

O que falta para o Brasil se tornar uma potência olímpica no atletismo?
 

Mural de Recado

elivan carneiro
16/10/2014 às 21h39
func publico
joao pessoa Pb

diga amigo gladson gostaria de desejar muita paz saude nao so pra vc como todos os seus familiares aproveito tb para parabenizar seu grande trabalho em prol do atletismo. Atenciosamente Elivan(ciclistaUltramaratonista natural de BananeirasPb residente em [...]

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Biografia

Gladson uma Vida de Obstáculos e Vitórias

No dia 16 de agosto de 1979, nascia o menino Gladson Alberto Silva Barbosa na cidade de Montes Claros, interior de Minas Gerais, norte do estado, filho de José Romeu Barbosa e Luisa Virgolina Silva.

Esse sou eu. Bom, vou dividir aqui um pouco de minha historia com vocês. Espero que gostem!

Morei por poucos anos em Montes Claros , pois quando tinha 3 anos meus pais se separaram e nós (eu, meu irmão mais velho Gleyson e minha mãe Luisa) nos mudamos para uma cidade do interior de São Paulo, Miguelópolis.


Foram momentos de muita dificuldade, pois minha mãe precisou nos sustentar sozinha: trabalhava o dia todo, deixava eu e meu irmão em uma creche e ainda tinha de sair sempre mais cedo do serviço para nos buscar, com isso nunca conseguia ficar muito tempo nos empregos. Para piorar, não tinha terminado os estudos por ter se casado muito cedo, com apenas 19 anos. Parou de estudar aos 18. Meu pai não era um exemplo de preocupação com a gente, ele não nos ajudava em nada. Então , minha mãe tinha de trabalhar para nos dar o sustento, educação e tudo mais.


Recordo-me de uma coisa que ela conta que sempre me deixa muito emocionado e faz com que eu a ame muito: “Um dia, já era noite, ela não tinha dinheiro para comprar comida para nós e eu e meu irmão estávamos com fome e chorando. Ela abriu uma lata e encontrou meio pão no fundo dela. Ela o pegou (estava até meio mofado), limpou o mofo, dividiu comigo e meu irmão e ficou sem comer para dar tudo que tinha para nós dois.”


Ela sempre dizia: "Meus filhos sejam sempre honestos, estudem e nunca mexam em nada que não seja de vocês." E tinha algumas regras que nos forçavam a executar esses pedidos, ela dizia: "Se um dia vocês pegarem algo que não é de vocês, eu corto a mão de vocês, mas antes bato muito nelas." e "Vocês só vão poder deixar a escola após terminarem a oitava série, depois vocês podem fazer o que quiserem de suas vidas." Ela, não sei como, mas, sabia que se nós não mexêssemos em nada dos outros e estudássemos, seríamos honestos. O mais incrível é que ela nunca teve ninguém para lhe falar isso, já que sua mãe faleceu quando ela tinha apenas 8 anos de idade e seu pai era bem ausente.

Depois de dez anos, ela se casou novamente com meu falecido padrasto, Frank. Desse casamento teve outro filho, Gláucio. Depois do seu segundo casamento, as coisas ficaram menos difíceis, pois tínhamos alguém para ser nosso pai e isso foi a melhor coisa que aconteceu para nós! É muito bom chegar o Dia dos Pais, fazer o presente na escola e ter alguém para entregar.


Ele foi um grande pai, principalmente para mim! Ensinou-me que se quisermos dignidade, só encontramos no trabalho honesto, isso ele me ensinou bem!

O início nos treinos

No ano de 1995, nos mudamos para a cidade de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, onde tive a oportunidade de iniciar os treinamentos visando resultado e performance no atletismo.

Já tinha participado de algumas corridas que aconteciam em Miguelópolis uma vez ao ano, no aniversario da cidade. Uma corrida que eu participava desde meus 9 anos de idade, de 6 km . Prova que, em minha primeira participação, fui terceiro colocado em uma categoria acima da minha, pois não tinham para menores, competi na faixa de 15 a 18 anos.

Lembro-me com carinho também de minha primeira professora de educação física em Miguelópolis, dona Vévinha. Era minha grande motivadora! No dia de minha primeira corrida, em 1990, eu terminava a prova em terceiro lugar e ela comandava a fanfarra da cidade. De repente, toda fanfarra parou de tocar e começou a torcer por mim. Eu não entendi nada, pois não era o primeiro, mas imaginem a cena: "Eu, quase um anão, magro feito um queniano, chegando em terceiro, em uma corrida onde tinha um monte de adultos", eu só queria chegar logo! Deve ter sido muito legal ver aquela cena! Até hoje, quando encontro meus amigos daquela época, recordamos desse momento em nossas conversas com muito carinho e diversão.

Ao me mudar para Ribeirão procurei uma equipe para treinar, pois pensei: "Aqui é uma cidade grande, deve ter alguém que dê treino de corrida.” Eu nunca tinha visto uma pista de atletismo na minha vida! Informaram-me que tinha um poliesportivo na cidade para eu procurar, a Cava do Bosque. Quando cheguei lá, nossa, foi incrível ver uma pista de atletismo, com um monte de crianças treinando, parecia filme!

Foi quando conheci meu primeiro treinador, Jairo de Souza, um ser humano incrível, era mais que treinador, era quase um pai para todos nós! Eu dei a sorte de, enquanto atleta, ele ter sido corredor de 800 metros e gostava muito de provas de meio fundo. Nosso primeiro encontro foi engraçado, ele me perguntou: "Que provas você corre?" Falei: "Entre 5 e 10 km ." Tinham muitos alunos dele por perto que começaram a rir, fiquei bravo, mas não falei nada e pensei: "O que falei de engraçado?" Ele disse: "Tudo bem, pode começar a treinar amanhã." Eu disse: "Por que não posso começar agora?" Ele respondeu: "Tudo bem!" comecei a correr, meio acanhado, mas maravilhado, pois era tudo novo para mim!

Eu não era rápido só nas pernas. Foi ali que conheci a Caroline, uma mocinha linda! Começamos a namorar logo na primeira viagem e depois de oito anos nos casamos. Muito tempo depois perguntei a ela porque, quando falei que eu corria de 5 a 10 km , eles começaram a rir e ela respondeu, rindo, que eles treinavam para correr provas até 1.000 metros ( 1 km ). Então, quem riu fui eu, pois, na verdade, vi que já era meio maluco de nascimento, crianças da minha idade não faziam o mesmo que eu.

Mas, o Jairo conversou comigo, disse que era muito cedo para eu ficar correndo provas tão longas, pois eu estava em fase de crescimento e isso poderia acarretar más conseqüências em minha saúde no futuro, que se eu treinasse provas como 800 e 1.500 metros , mais tarde elas me projetariam a ser um grande corredor de longa distância. Eu respeitei a opinião dele. Nunca fui um belo corredor de meio fundo, mas ganhei alguns Jogos Regionais e sempre que terminava o período de pista no meio do ano, eu fugia para as corridas de rua até 10 km , pois eram minha paixão.

Primeira mudança de treinador

No ano de 1999, passei para a categoria adulta e comecei a treinar na UNAERP (Universidade de Ribeirão Preto), com o Professor Giuveline, outro que, digo, teve alguns momentos de definição em minha carreira, ele foi decisivo. Um dia estava desanimado pois tinha que trabalhar o dia todo na construção civil; pegava minha bicicleta "Caloi 10" e atravessava a cidade para treinar; saia da UNAERP por volta das 9 horas da noite, cansado, com fome e atravessava a cidade para chegar em casa; não tinha patrocínio, a prefeitura não ajudava financeiramente; às vezes, furava o pneu de minha bicicleta e não tinha dinheiro para arrumar. Isso, já se fazia anos, a mesma coisa e nada de mudar, eu sempre buscando algo no escuro que nem mesmo eu sabia o que era. Falei para o “Juva”: "Vou parar de treinar, não agüento mais!" Ele ficou branco, me olhou assustado, pois nunca tinha me visto desistir de nada em minha vida, e perguntou: "Por quê?" Eu disse a ele: "Não tenho dinheiro nem para pagar passe de ônibus para vir ao treino, estou muito desanimado, treino com a mesma sapatilha há 4 anos, já esta rasgada, e não sei como vou fazer para comprar outra." Ele disse: "Quanto você precisa para pagar o ônibus, eu vou te dar, e não precisa me pagar depois."

Nossa, essa foi a coisa mais bonita que senti no atletismo até naquele momento de minha vida, pois alguém olhou para mim e valorizou meus 6 anos de treino! Nunca alguém tinha feito algo parecido por mim no esporte. Disse a ele: "Obrigado, Juva! Não preciso mais de dinheiro, só precisava sentir que tenho valor para alguém." Continuei indo de bicicleta do mesmo jeito, todos os dias, mas agora treinava todos os dias como se fosse o último de minha vida. Era bom vê-lo olhando meu treino e torcendo por mim.
Sempre fui apaixonado por corrida, mas meu amor de verdade era por provas de fundo e um dia parei de treinar com o Juva, pois ele só treinava atletas para provas até 1.500 metros, eu queria correr na rua.

O encontro com meu grande amor, corridas de rua.

Foi então que conheci meu grande treinador e amigo, Agnaldo, o Guina. Foi um marco em minha carreira. Ele tinha deixado de correr a pouco tempo e estava iniciando sua carreira como treinador. Foi legal, pois crescemos juntos. Era muito bom treinar com ele! Nós brincávamos muito, nos divertíamos, viajávamos juntos e vibrávamos juntos com cada conquista. Cada treino melhorado era uma energia incrível! A equipe dele em Ribeirão cresceu muito, logo conseguimos patrocínios.

3M, divisor de águas

Comecei a trabalhar na 3M do Brasil, empresa que mudou minha vida. Como pessoa e atleta existem o eu antes e o eu depois da 3M. Eles me deram muito mais que emprego. Deram dignidade para mim e minha família, oportunidade de ser alguém na vida, convênio médico e odontológico, eu não precisava mais levar marmita para o serviço - pois tinha um refeitório na empresa, isso era incrível!, um salário e a valorização de meu nome - trabalhando na 3M, eu chegava nas lojas para fazer crediário e só de falar que era funcionário da empresa, pronto, não precisava de mais nada, podia comprar a "loja toda".

Por fim, eles me deram tudo que sempre sonhei em minha vida, um patrocínio esportivo. Nossa! No dia que o Timóteo da 3M disse: "Meu querido, Gladson, o Neto, gerente geral da fábrica, autorizou seu patrocínio!" Meu, foi muito emocionante! Eu chorei muito no banheiro da empresa. Após 9 anos de luta, com muitas promessas que nunca se cumpriram, eu teria um patrocínio.

Eles me deram de tudo: uniforme, tênis, pagavam todas minhas despesas de corrida, minha suplementação, abonavam minhas horas de trabalho quando eu viajava para competir e eram flexíveis com meus horários de trabalho. Era tudo que eu precisava!

Nunca vou conseguir retribuir a 3M tudo o que fizeram por mim. Só sei de uma coisa: tenho muito orgulho de fazer parte dessa família chamada 3M do Brasil! Eles estão comigo desde 2001 e vão estar sempre, pois eu não seria ninguém sem eles.

Em 2005 mais uma mudança, e acredito que era a que faltava para alcançarmos finalmente o que sempre busquei, ser um atleta de elite.

Integrando a Equipe do Esporte Clube Pinheiros

No mês de julho de 2005, comecei a treinar com Cláudio Castilho, do Esporte Clube Pinheiros, clube para o qual me transferi em Janeiro de 2006.

Admiro muito esse homem, pois o Cláudio foi a pessoa que me estendeu a mão em São Paulo quando ninguém acreditava em mim. Eu queria muito competir em um clube da capital, mas ninguém me dava uma chance.

No Troféu Brasil de 2005, conversei com o Cláudio e pedi que ele me treinasse. Ele nem por um segundo falou outra coisa que não fosse sim, e me disse mais: "Meu garoto, eu acredito que você pode vir a ser um dos melhores corredores desse país e um dos melhores do mundo." Eu concordei com ele naquele momento, mas lá no fundo pensei: "Ele deve ser meio doido, pois eu acabei de ser oitavo no Troféu Brasil, quase morri e ele vem me falar isso? Eu só quero correr e fazer o que amo!"

Não é que ele tinha razão? A diferença dele para os outros treinadores é que ele me viu como um campeão e não apenas como um atleta. Isso foi o suficiente para eu treinar a cada dia com foco, objetivo, determinação e compromisso com os treinos, alimentação e descanso.

Tive a sorte grande de encontrar na equipe o atleta Sérgio Celestino, o Sérjão, que estava começando também com o Cláudio. Nossa, dava medo de ver ele correr! Corria muito feio, mas tinha uma força na corrida, monstruosa! Começamos a treinar juntos com os mesmos objetivos. A cada dia era uma guerra! Naquele momento ele me ajudava a melhorar minhas deficiências na corrida, era muito resistente e forte e eu, não era lá essas coisas! Nossa, sofria igual cueca de gordo para acompanhar ele, mas com o tempo fui melhorando e agradeço muito ao Sérgio por tudo que ele fez por mim, sem ele eu não teria conseguido tantas coisas. Obrigado, meu amigo!

A primeira lesão grave

Bom, no inicio da temporada de 2006, logo que começou o ano, acabava de me transferir para o Pinheiros e tive a minha primeira grande lesão, fratura de stress na fíbula da perna direita, diagnóstico: três meses sem correr nada, apenas musculação, bicicleta e piscina. Foi muito ruim! Estava louco para correr e tentar uma medalha no Troféu Brasil daquele ano na prova de 3.000m com obstáculos, pois já estava conseguindo bons resultados a nível nacional.

Descobri a lesão no mês fevereiro, ficaria até maio sem correr e o Troféu seria no mês de julho. Teria três meses para me preparar. Enfiei a cabeça na musculação, pedalava igual louco, quase quebrava a bicicleta na academia e fazia rodagens e tiros na piscina. Era muito ruim ver nos sites todo mundo correndo e eu sem poder correr. Mas respeitei a decisão médica e fiz tudo certinho, após 90 dias estava com alta e podia iniciar os treinos com corrida, mas bem devagar: corria um dia e ficava dois na piscina, depois corria dois dias e um dia na piscina, até que comecei a trotar todos os dias.

Altitude em Paipa

Sentamos, eu e o Cláudio, e fizemos uma estratégia que era no mínimo muito arriscada, mas era a única no momento: "A dois meses do Troféu, vamos fazer 15 dias de camping em Poços de Caldas com concentração total, depois sobem, você e o Sérgio, para Paipa, na Colômbia, a 2600m de altitude, e só voltam para a disputa dos Jogos Abertos, que seria em São Bernardo do Campo, e para o Troféu Brasil.” Nossa! Não pensei um segundo e falei para ele na hora: "Vamos embora!"

Eu queria muito correr bem o Troféu Brasil, mas só depois fui pensar: "Nossa, eu nunca saí do país, não sei falar nem português direito, muito menos espanhol ou inglês!" Mas minha vontade era maior que o medo e falei: "Sérgio, nós embarcamos para Paipa logo depois dos regionais e vamos ver o que dá." Compramos no aeroporto um dicionário português/espanhol e fomos embora rumo a Paipa.

Chegamos em Bogotá morrendo de medo da guerrilha e coisa e tal, saímos do aeroporto olhando para todo lado, entramos em um táxi, depois em um ônibus e mais 4 horas de viagem. Chegamos lá à noite, não conhecíamos ninguém nem nada. Fomos dormir em um hotel bem simples e no outro dia cedo saímos para treinar.

Encontramos com nosso amigo atleta brasileiro, Celso Ficagna, que estava treinando lá. Nossa, foi um alívio! Ele logo nos falou: "Se vocês quiserem, podem ficar na casa que estou." Foi tudo que eu precisava ouvir, pois nem casa alugada lá nós dois tínhamos. Ficamos lá com ele e foi muito bom, pois o Celso já tinha ido outra vezes para Paipa e nos mostrou tudo por lá. Sem ele a gente teria passado apuros, com certeza!

Conhecemos, através do Celso, nosso anjo da guarda em Paipa, Rafael, o massagista, um ser humano fantástico, que nunca conseguiremos agradecer e retribuir tudo o que fez por nós e por todos os brasileiros que vão a Paipa.

Treinamos 28 dias e voltamos. Era muito estranho pois parecia que estávamos iguais a quando fomos e disse para o Sérgio: "Acho que altitude não vira nada não."
Logo na primeira prova, os 5000m nos Jogos Abertos, foi demais! Corri 14´07 e bati o recorde dos Jogos. Meu, fiquei impressionado! Um dia sonhei em correr os Abertos e de repente era o recordista do campeonato. No dia seguinte fui segundo nos 1500m com meu recorde pessoal, 3min46seg.

A realização do sonho

Uma semana depois, a grande prova, final dos 3.000 metros com obstáculos do Troféu Brasil de Atletismo. Era mais um dia de provas do atletismo, já com algumas finais, e a minha prova seria às 16h30min. Estava muito confiante, mas ao mesmo tempo muito tenso, pois eu poderia ganhar a minha primeira medalha do Troféu Brasil. O que há um ano era quase impossível, agora estava eu, ali, treinado, pronto, focado, mas sabia que não seria uma tarefa fácil. Teria que derrotar dois dos principais nomes do obstáculo da história do Brasil, Celso Ficagna, atleta já algumas vezes campeão do Troféu e referência para mim, e Fernando Alex Fernandes, invicto no país há 3 anos e tinha acabado de disputar a Copa do Mundo de Atletismo, em Atenas.

Tudo era contra mim e para piorar eu nunca tinha corrido abaixo de 8´50" na prova que sempre venciam com tempo entre 8´40" e 8´50". Mas me peguei a Deus, pedi a ele autocontrole e sabedoria para o desenrolar da prova. Me vali do grande trabalho de preparação dos últimos 60 dias, desgastantes, exaustivos; me lembrei dos finais de treinos em Paipa, que meu nariz sangrava, as dores nas pernas a noite eram tão grandes que tinham dias que me davam febre; da solidão de ficar longe das pessoas que amava e de tudo que muitas pessoas tinham feito por mim até aquele momento.

Mas dali para frente nos próximos 9 minutos ninguém poderia fazer mais nada por mim, a não ser eu mesmo. Tinha que assumir todos os riscos e responsabilidades, fazer uma estratégia com meu treinador, Cláudio, e executar sem pensar.

Eu tinha a consciência de que estava veloz, pois tinha feito dois tiros de 1.500m muito bons nas últimas duas semanas, e estava resistente também, pois tinha acabado de correr um 5.000m muito forte há uma semana. Mas tinha uma dúvida: como estará minha força, já que isso não se pode medir muito bem, e o obstáculo é uma prova de força também. Isso era comigo, não tinha falado com ninguém.

Faltando 10 minutos para entrarmos na pista, o Cláudio me chamou para fazer a estratégia de corrida, como sempre, e antes de qualquer coisa falou: “Cabelo, acabei de pegar os resultados de seus exames pós-altitude e eles indicaram que você, além de estar com a saúde perfeita, está muito forte, como nunca esteve em sua vida!” Nossa, aquilo era tudo que eu precisava ouvir! Ele concluiu e falou apenas o seguinte: “Vai lá, meu garoto, você está pronto!”

Entramos na pista todos em fila e dava para sentir a tensão de todos. Olhávamos uns para os outros, tensos, não sei, mas era diferente. Fora da pista ninguém dava muita atenção das arquibancadas, pois para eles era apenas mais uma prova de fundo que os atletas ficam rodando, rodando, mas todos nós sabíamos que aquela não seria uma prova como todas as outras, ela era especial.

Era final de tarde na Pista do Ibirapuera, todo tranqüilo e silencioso, até demais para um Campeonato Brasileiro e, de repente, mais um tiro de partida. Quando me aproximei do primeiro obstáculo, passamos todos juntos e algo em mim disse: "Aqui não é seu lugar, seu lugar é lá na frente, surpreenda eles." Parti para frente e começamos a fazer uma corrida muito rápida desde o início. Eu liderando a prova ouvia muitas pessoas dizendo: "Vai quebrar, diminui, está forte", mas eu queria ir cada vez mais rápido e assumi o risco.

Sei que poderia ter colocado tudo a perder, mas tudo que é previsível também não gera emoção. Passamos os primeiros 400m para 1 minuto e os 1.000m para 2´44”, muito forte para as condições do dia, quase uma insanidade! Depois, ao desenrolar a prova, por volta do 2.000m, o Fernando se lesionou e parou, mas eu só fiquei sabendo disso depois do fim da prova. Então, o último km foi lindo! Eu e o Celso travamos uma batalha na pista, lado a lado a cada passo, a cada metro, a cada obstáculo, a cada volta. O Cláudio torcendo e gritando para mim e o treinador do Celso, Ricardo D'Ângelo, gritando e torcendo por ele. Começamos a ouvir a arquibancada toda torcendo e foi lindo, pois pela primeira vez eu senti que as pessoas estavam olhando para uma corrida de fundo no Brasil.

Na última volta, abrimos juntos, um ao lado do outro, ombro a ombro, e quando ouvi do som da pista "última volta para os atletas nos 3.000m com obstáculos, Gladson e Celso", nossa, foi muito emocionante, pois senti que além de ser medalhista do Troféu eu poderia ser campeão! Isso me fez crescer muito naquele instante, pois estava com muitas dores nas pernas e nas costas, cansado, e nesse momento pedi a Deus força para mais uma volta. Foi incrível passar o último obstáculo e saber que eu estava dando meus últimos passos para me tornar Campeão Brasileiro.

Quando cheguei e ouvi meu nome e do Pinheiros, vibrei muito e comecei a chorar ao ver toda a arquibancada de pé aplaudindo. Amigos meus de infância chorando de felicidade, companheiros de equipe chorando e vi o Cláudio vindo correndo, me abraçou como um filho, me deu a bandeira do Pinheiros e disse: "Esse momento é seu." Respondi: "Obrigado, mas esse momento é nosso. Obrigado, treinador, você é o grande vencedor!" Peguei a bandeira do Pinheiros e meu amigo de clube que tinha corrido a prova também, o Vanilson, e fomos até a arquibancada agradecer a torcida de todos. Beijamos a bandeira do clube que tanto fez e faz por mim e todos os atletas do Pinheiros para que alcancemos nossos objetivos.

Títulos

Depois tivemos mais dois títulos seguidos no Troféu Brasil em 2007 e 2008; conseguimos a vaga para os Jogos Pan-Americanos no Rio em 2007; fomos Vice-Campeão Sul-Americano; Terceiro colocado nos Jogos Ibero-Americanos, Bi-Campeão Brasileiro de Cross Country; Campeão da Corrida Pan-Americana no Rio; fiquei bem perto do índice para os Jogos Olímpicos de Pequim; integrei por diversas vezes a Seleção Brasileira de Atletismo, o que sempre faço com muita honra e orgulho ao poder representar o meu lindo e amado país. Tive muitas alegrias até aqui no atletismo, esporte que tanto amo, mas nada me fez sentir emoção e felicidade maior que a conquista de nosso primeiro título brasileiro, em 2006.

Agradecimentos

Resumi um pouco de minha vida pessoal e esportiva aqui com vocês, com muito carinho, pois acredito que posso, de alguma maneira, contribuir para que pessoas com condições de vida desfavorecidas como a minha, tenham sonhos, amem aquilo que fazem, não tenham medo de trabalhar arduamente, tenham muita fé em Deus e conseguirão serem vencedores, não só no esporte, mas na vida.

“Aquele que ama o que faz, não se cansa de trabalhar e tem fé que vai conseguir, independente de sua condição social, nunca desista, pois uma hora vai conseguir. Não sei como, mas uma hora você chega lá.”

Airton Senna da Silva.

Gostaria de agradecer, além das pessoas citadas no texto acima, a muitas outras pessoas que sempre fizeram de tudo para que eu conseguisse alcançar meus objetivos e realizar meus sonhos, que doaram muito mais que dinheiro, mas seus tempos e a dedicação por minha pessoa.

AAARP:

Reinaldo (Pagode), Regina, Iraci, Karina, Fabiana, Antenor (Pezão), Fábio, Osmar, Marcão, Daniel, Sidnei Avelino, Coronel Correia, Professor Abel, Lupércio, Puya, Lucas, Neusa, Douglas, Claudinho Ribeiro, e a todos os queridos de Ribeirão Preto e da AAARP (Associação dos Amigos do Atletismo de Ribeirão Preto), que sempre se dedicaram a mim e a todos em Ribeirão.

3M do Brasil:

Meu querido amigo e irmão Marcos Tadeu da Silva (o Palhinha); meu pai na 3M, o Timóteo; Neto, que Deus te dê em dobro, amigo, tudo que você fez por mim, pois só ele pode te pagar, eu sempre vou ser grato e agradecido por isso; meu querido Nelson Tormena, que sempre ajudou em tudo que precisei; a meus querido chefes que sempre seguravam o rojão quando eu precisava faltar para competir e eram flexíveis nos horários para eu executar os treinos: Paulo Catão, Reginaldo, Gustavo, Fernando Pelicano, André, Andresa, Carmela querida;
3M Matriz:

Meu querido amigo e idealizador do Gladson na 3M Matriz em Sumaré, um verdadeiro anjo, Julio Gandara, que Deus o abençoe sempre, a todos os meus queridos amigos de produção e a toda família 3M, sem vocês eu nada seria.

Pinheiros:

Kassab, Rosinha, Ricardo, a todos queridos amigos e atletas do atletismo: Serginho, Sérjão, Gilmar, Binho, Everton, Vanilson, Valdison, Guilherme pancada, Teles, Josué, Daniel, Maria, Rosângela, Adriana, Fabrícia, Marli, Débora, Íris, Adriana de Souza, Sirlene, Gisiane, Nei, Alemão, Mano, Maninho e sua irmã Maninha, Romário, Mari, Valdilene, e a toda diretoria.

Família, amigos, a todos que sempre torceram por mim, principalmente a Carol, que sem ela eu não teria conseguido nada em minha vida e a Deus que é tudo em minha vida.

Termino esse resumo de minha história aqui e peço desculpas se esqueci de alguém mas saibam que agradeço de coração a todos os queridos amigos.

Abraço,
Gladson (3M, Pinheiros).
Lisboa, Portugal 20 de março de 2009.

Perfil:

Gladson Alberto Silva Barbosa
Data de Nascimento: 16/08/1979
Local: Montes Claros (MG)
Peso e altura: 55 kg, 1,64 m
Prova 3.000 m com obstáculos
Técnico: Cláudio Castilho
Equipe: Esporte Clube Pinheiros (SP)

Principais Conquistas:

Penta- Campeão Brasileiro 2006/07/08/12/13. Prova dos 3 mil metros com obstáculos.
Bi- Campeão Brasileiro de Cross Country 2007/2009. Prova de 12 km.
Campeão Estadual 2007. Prova de 10 mil metros rasos.
Campeão da Corrida Pan-Americana Internacional 10 km.
Vice-Campeão do 32nd Almond Blossom Cross Country- Lisboa. Portugal - 2009.
Vice-Campeão Sul-Americano de Cross Country - Chile/ 2009.
Vice-Campeão Sul-Americano 2007. Prova dos 3 mil metros com obstáculos.
Vice-Campeão Brasileiro de Cross Country 2005. Prova de 4 km.
3º Colocado Ibéro-Americano 2008. Prova dos 3 mil Metros com obstáculos.
3º Colocado Sul-Americano 2006. Prova dos 3 mil Metros com obstáculos.
4º Colocado e finalista nos Jogos Pan-americanos Rio 2007.

Recordes Pessoais:

800 Metros rasos: 1.55.0 (Pista).
1.500 Metros rasos: 03:46.01 (Pista).
2.000 Metros rasos: 05:08.63 (Pista).
3.000 Metros rasos: 07:58.49 (Pista). GP Internacional de Belém - Brasil. 19/05/2010.
3.000 Metros c/ obstáculos: 08:35.77 (Pista).
5.000 Metros rasos: 13:54.44 (Pista).
10.000 Metros rasos: 29:17 (Pista).
10 km: 29:09 seg. (Rua).
Meia Maratona (21.1 km): 1:05.50 seg.